14 de ago de 2017

Todas as estrelas do céu - 2





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23 de jul de 2017

Um sonho que passa

Aos trancos e barrancos, passa. Chacoalhando e bufando estrepitosamente, quase parando na lombada, mas passa. Um desses carros antigos que estranhamente escaparam do ferro-velho.
O motorista, braço de fora, acena para os passantes conhecidos, sorriso largo, orgulhoso de seu automóvel - um sonho de consumo realizado.
Ao lado vai a mulher, contentíssima, e no banco traseiro as crianças fazem algazarra.
O carro segue com esforço, embora dentro de si carregue a leveza da felicidade familiar em manhã domingueira de sol. Bufando sempre, desaparece na curva.

18 de jun de 2017

Paranoia?

Por duas semanas estive em São Gonçalo colaborando em obra de construção já referida em crônica anterior. Ficamos, eu e o Zé, meu pedreiro favorito, alojados em quartinho-suíte no terraço da casa vizinha à obra, residência da sogra da mãe de Yasmin.
Vou dormir cedo, que o corpo pede. Consequentemente acordo pela madrugada e fico aguardando sinais do alvorecer: o cantar dos muitos galos que há por lá, os primeiros trinados dos pássaros, inclusive de um casal de sabiás que vive nas proximidades, o roncar de carros na rua, a passagem do primeiro ônibus, o latir de cães, os passos apressados e duros de algum trabalhador descendo as escadas, a eventual fala entre  vizinhos que se encontram. 
Passa o segundo ônibus. Passa o terceiro. É hora. Levanto-me, preparo-me e desço. A nascente claridade do dia, ainda muito tímida, se anuncia. Faço hora na rua se ainda não abriu a padaria. Aberta, peço dois cafés, tomo um, calmamente observando a paisagem humana de trabalhadores rumo ao ponto de ônibus ou esperando nas esquinas, levo o outro para o Zé , me troco e desço à obra, iniciando o trabalho, antes mesmo do café da manhã.
Tem sido assim todos os dias. Melhor, quase todos...
Terça ou quarta-feira passada, ao descer encontrei o portão trancado; abri o ferrolho interno, mas alguém passara a chave na fechadura, que antes ficava só no trinco. Olhei em volta à procura de alguma chave, ainda não acreditando que me trancaram. Mas trancaram!
No terraço, esperei, irritado e ansioso, que D. Norma (a sogra) abrisse o portão, libertando-me.
E foi assim no dia seguinte e no outro.
Comentando com o Zé, disse-me ele que D. Norma andava muito preocupada com roubos, assaltos e tal... Eu mesmo já comentei um desses eventos que preocupam D. Norma, o assalto no ponto de ônibus. Mas que diabo! Um ferrolho com meia polegada de diâmetro é mais seguro que qualquer fechadura! Com tal parceria, uma fechadura não acrescenta nada, é inútil! Isso é paranoia! Se alguém mal intencionado quiser entrar, escala o muro, que é bastante alto, mas nada de impossível a um malfeitor.
Na sexta-feira comentei com o filho de D. Norma, dono da obra na qual colaboro:
--- Que nada, seu Antonio! Minha mãe tranca o portão para o senhor não sair muito cedo, para lhe proteger, preocupada com a sua segurança...
Ora vejam só! D. Norma me tranca para me proteger! Uma espécie de prisão preventiva domiciliar de curta duração e a favor do réu. E nem sou réu de delito algum. A não ser de me cansar, dormir cedo e acordar pela madrugada.
Mas sosseguei e não penso em reclamar de nada. Submeto-me às normas de D. Norma. Espero pacientemente o portão ser aberto. Na próxima semana levarei uma revista para ler, ou um livro. D. Norma nos trata muito bem e faz um pãozinho caseiro recheado com presunto, uma delícia! Faz lembrar-me, mal comparando, do bolo salgado que minha mãe fazia a cada fornada, com cobertura de sardinhas. Ah! que regalo! E que saudade!   

14 de mai de 2017

Dia de mãe

Dia desses, estando em São Gonçalo, acordei cedo e fui à padaria tomar um café. Mais ou menos 6 horas da manhã.
Ninguém no ponto de ônibus, apenas o fiscal da empresa. Estranhei, haja vista ser o horário mais concorrido.
Ao passar pelo fiscal, cumprimentei-o e notei um grupo de pessoas afastadas sob um telheiro em frente ao ponto. Na esquina próxima, duas pessoas. E mais além, na esquina da padaria, mais três ou quatro que pareciam não estar esperando a padaria abrir. Que por sinal abria naquele momento.
Peguei o meu café e sentei-me em cadeira na calçada apreciando aquela paisagem humana. Na esquina em frente uma senhora acompanhava um adolescente, provavelmente filho. Não conversavam. A mãe olhava o ponto de ônibus e o rapaz, homenzinho que era, parecia insatisfeito com a escolta materna.
Vem o ônibus. Imediatamente aquelas pessoas, e outras que surgiram das casas, movimentam-se apressadamente em direção ao ponto como formigas dispersas repentinamente atraídas pelo cheiro estimulante de um grão de açúcar.
Lembrei-me então  do que me contaram. Há dias, dois bandidos motorizados e armados chegaram naquele horário e assaltaram todo o grupo que aguardava a condução; fizeram uma "limpa": dinheiro, relógios, celulares, tudo.
A mãe permanece na esquina até que seu filho e todos embarquem, e se afasta lentamente. Ainda se volta para ver a passagem do coletivo. E segue. Leva apenas uma certeza: seu filho partiu bem...